Dedicado a Maukas.
Aos 14 anos, Queca nunca tinha beijado. Era estudiosa, não era popular; pobre, estudava em um colégio de ricos, graças a uma bolsa. Ficava sempre entre os primeiros lugares da turma. Era cercada dos populares apenas em dias de prova, quando se sentia poderosa.
Usava uns óculos fundo-de-garrafa e tinha dente torto. Admirava de longe todos os meninos mais lindos do colégio e suspirava quando eles passavam. Não sabia o nome de nenhum deles, por isso, ganhavam apelidos, para serem identificados entre suas amigas.
Aos catorze, avistou-o. Ela estava no primeiro ano, ele era do convênio, fazia CE. Andava sempre com os mesmos dois amigos. E com uma amiga que não era tão bonita: tinha cabelo curto, mas parecia bem legal. E tinha tanta sorte! Sempre estava com ele durante o recreio, no banco marrom que ficava grudado à parede. O nome dela, ela sabia: era Carla.
Para Queca, eram namorados, mas nunca se beijavam. Então deveria ser amigos mesmo. Queca observava-os durante os vinte minutos inteiros de intervalo. E era sempre muito legal quando a moça faltava (que raro!).
Depois de um ano, ele se graduou no ensino médio. Saiu da escola. Por sorte, ela continuava encontrando-o por acaso no único shopping que havia em sua pequena cidade. E por mais sorte ainda, descobrira que ele morava no final da rua de sua casa de praia. A famigerada Rua Nova, onde carros atolavam toda vez que chovia.
Queca ficava na frente de sua casa, a maior parte do tempo. Mesmo com medo do poodle preto que morava ao lado. Ela encarava para esperá-lo passar. E ele sempre passava. Costumava ir à praia no final da tarde e só voltava à noite. E Queca ficava lá. Sempre esperando e sorrindo…
O tempo passou. Ela nunca mais o viu.
Usou aparelho, colocou lentes de contato, trabalhou a autoestima e mudou pra melhor. Hoje, as pessoas já a achavam bonita, mesmo ela sabendo que tinha conquistado isso. Às duras penas. O que a fez diferenciada: além de bonita, humilde e antenada. Mas continuou gostando de jogos digitais, herança meio-nerd do seu passado.
Eis que encontra o seu admirável admirado do passado, na internet. O queixo cai. Como assim, ele ainda está solteiro? Mandou um “oi, tudo bem?” e acabaram saindo. Comemorou. Embora ele não a tenha beijado no primeiro encontro. Ela tinha saído com ele!!!
Ligou para a sua amiga de adolescência e comemorou até mais que no dia que venceu a sexta série jogando com a quinta, no vôlei dos jogos do colégio. É claro que a amiga se lembrou dele. Foram anos escutando aquele apelido.
E, ao contrário do que imaginava, além de bonito, ele também era inteligente. Fazia umas gambiarras eletrônicas em casa, sem ao menos fazer cursos pra isso. Além de inteligente, era gentil. Não se importava de ficar no calor se ela estava com frio. Não deixava com que ela o servisse, era ele quem sempre a servia.
Ela chegava em casa e agradecia todos os dias pela graça alcançada. Parecia um sonho! Nunca imaginaria que o mundo iria girar completamente ao seu favor!
Cada mensagem dele era uma vitória. Era mais um dia ao lado de quem fazia parte apenas de seus sonhos – já se contentava mesmo em admirar sua beleza de longe… – e agora ela estava tão perto, mas tão perto, que era mesmo muita sorte estar ali.
Cada dia era uma comemoração. Ela sabia que poderia ser o último, então aproveitava cada momento. Claro que tinha esperanças que desse mesmo certo. Mas não poderia se apegar a isso. Já era pedir demais.
E hoje, ela ainda celebra, agradecendo pela chance aproveitada. Oportunidades como essa, raríssimas pessoas tem.
Kiitos paljon!














