Porquês

“(…) Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, E parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”

Eu gosto do modo que cantas, desafinando nas notas mais longas, e fechando os olhos, como se sentisse a música que ouves de ti mesma.

O jeito de levantar os óculos e as sobrancelhas simultaneamente, quando estás em casa, toda despenteada e vestindo aquela camisola velha de algodão que tanto adoras.

As tuas expressões faciais de quando contas uma história, assim como as entonações de voz. Pões sentimentos em tudo o que fazes e disso, eu gosto muito.

As tentativas de esconder o choro quando assistes o seriado que parece contar a tua vida. E os teus disfarces para enxugar a lágrima que escapou sem tua autorização. E no final do filme, como corres para o banheiro a fim de lavar o rosto, mas fazendo todos pensarem que correste porque estavas apertada.

A facilidade com que te apaixonas pelas coisas. E a rapidez com que te desempolgas com o primeiro defeito. E a exigência de que eu te conquiste todos os dias, como naquele filme do Adam Sandler. E os sorrisos que mostras para mim quando vou te beijar. E também aqueles que interrompem o beijo…

Teu sorriso me ilumina e eu acho engraçado quando ficas brava, com o teu bico e os teus braços cruzados à frente. O teu silêncio estranho, tuas monossílabas e o teu sarcasmo evidente. A vontade de incomodar a todos com a tua buzina, os teus gestos atrevidos quando te ultrapassam, teus xingamentos. Tudo muito engraçado.

Mas o melhor mesmo é quando estás sozinha comigo e não falas nada. Penetras no meu olhar invadindo minha armadura. E sorris. E envolves meu corpo em teus braços delicados. Tuas mãos finíssimas passeiam pelo meu dorso e tua bochecha roça em minha barba. E quando eu finalmente te abraço, tu te assustas, como se agora estivesses indefesa, mas sabes que não estás. Estou em tuas mãos, teus braços, tuas pernas. Oh, que pernas! Sem falar nas partes que admiro mais…

E enquanto me beijas, guias o meu pescoço como queres, apertas-me, chega a machucar. Marcas minha alma em brasa, e ela queima…

E depois de tudo, tu te escondes sob os lençóis, como uma menininha, e lanças aquele olhar sapeca de quem fez uma travessura. E a gente ri. Pego um cigarro e tu sais para banhar-te. Sei que foges da fumaça causada por mim, devido à tua alergia. Voltas sempre morrendo de frio, para que eu te aqueça. E dormimos.

Acordas sempre de boca limpa e cheirosa (sei que teimas em acordar antes de mim para escovar os dentes e voltar para a cama, sim, eu sei disso), mas sempre, sempre descabelada. Cabelos selvagens combinam contigo. Tuas ondas emaranhadas denunciam o teu poder.

E podes ter a certeza de que enquanto fores como és, eu continuarei sendo teu, por muito tempo.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s