Carta de Sublimação

Para um leitor especial

Pela madrugada, defines os caminhos do meu pensamento, justamente quando preciso dormir. Estás ali, gerando sentimentos tolos, sem nenhum por quê, pois não fizeste nada – e talvez seja por isso que eu te ame tanto – mas estás sempre ali.

Depois da música que toca no despertador; no sol que nasce tornando o azul-escuro num azul-claro e depois alaranjando até ficar róseo e finalmente amarelo; na minha mochila de cinco quilos carregada sobre os joelhos que já não são tão bons; na esperança de te encontrar no final de semana, depois de tanto esforço ridiculamente assistido em rede internacional.

No chuvisco que cai em meu retorno de barco, nas fotos que tiro para te impressionar. Não sou eu quem está ali porque raramente estou assim e quem me vê hoje, mal me reconhece, porque, se o mundo gira, deve ser para um dia te encontrar. Deve ser, tem que ser!

Não há rodeios, não há medos – estes já se esvairam também com a esperança que um dia a situação mude. Não, não mudará – mas não posso negar que até que seria interessante uma surpresa… como foi aquela noite em que você sorriu quando nos encontramos por acaso.

Surpresas. Não as espero. Considero-as um milagre, porque antes eu acreditava em ‘ato e efeito’ e hoje acredito em sorte, orações, trevo-de-quatro-folhas, banhos do ver-o-peso, boas ações que se traduzem em boas energias e, quiçá, em um outro sorriso teu direcionado a mim.

Eu não precisaria escrever tão bem, uma vez que teorizar sobre o amor é inútil – eu sempre disse – e é inevitável fazê-lo quando se é poeta. Não que eu seja poetisa, nem almeje ser. Minha poesia está onde ninguém mais pode ver e sim, onde se possa senti-la. Sentes?

Também não precisaria ter um bom gosto musical ou tirar algumas fotografias por lazer. De que adiantaria traduzir-me em música ou imagens se o que sou é diferente, é complexo, é alto, é baixo, é looping, é mais que isso?

Não sou a arte. Também não sou uma artista, apesar de querer ser.

De madrugada sou a trabalhadora insone; no café-da-manhã sou mãe de uma cadela poodle e filha de uma senhora super-protetora que vive para os dois filhos. Depois, transformo-me em uma motorista perigosa, porém cantante. Responsável no trabalho, amiga nas horas vagas, palhaça quando com crianças, dançarina quando sai a noite. Falante, expansiva, sentimental, curiosa, ciumenta, questionadora, justiceira, teimosa, pequenina – mas, ao mesmo tempo com uma alma imensa, e densa – sedenta por tudo o que há em volta, comidas, lugares, gentes, informações.

E porque não poderia ser algo mais? Il y a toujours quelque chose d’absente qui me tourmente e agora eu sei exatamente o que me falta. Que sinto falta do que nunca tive e, pelo visto, nunca terei.

C’est la vie! Não se pode ter tudo. Afinal, se tudo fosse flor, não haveria poesia, nem o sofrimento dos poetas e nem este texto que de tristeza – só um pinguinho dela, já que todo mundo a tem dentro de si, mas não assume – pode transformar-se em arte.

Sublimação

s.f.(a)
1. Ação ou efeito de sublimar.
2. Química. Alteração direta do estado gasoso para o estado sólido, e viçe-versa, sem passar pelo estado líquido.
3. Fig. Purificação.
4. Psicanálise. Processo inconsciente pela a qual a energia da libido se desvia para trabalhos mentais criativos, socialmente desejáveis.

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2 pensamentos sobre “Carta de Sublimação

  1. Oi Jazz. Vim aqui por sugestão do Fabricio da PdH e gostei muito do que li. Poético esse post e respondendo à pergunta: sim, é possível sentir a poesia. Lembrei dos textos do Gitti.

    Ser recomendada por um escritor do PdH e comparada ao Gitti, cara, meu ego foi lá em cima agora… Os blogs deles são uns dos meus preferidos e são blogs realmente grandes.

    Obrigadíssima por este comentário!

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