Devaneios em uma Caminhada

Para Thomás

Em quarenta e cinco minutos de caminhada, cabelo solto, tênis e mochila nas costas. Em passos leves, desvendava pensamentos calmos, divagavam livres, como em meditação – sem ordem, conexão…

Atravessei a primeira rua e vi os traseuntes. Temi ser assaltada, mas era cinco da tarde e o sol amarelava os prédios da cidade. Estava tudo lindo, no melhor horário do dia, para mim – deve ter sido por isso que eu nasci a essa hora…

Passei pela praça e avistei um rapaz bonito, mas que no momento estava acima do peso. Cada um na sua. A velhinha com o cachorro, os jovens caminhando na praça. E eu me lembrando do dia em que passei por lá com um estranho esquisito, para tirar fotos; lembrando de quem me convidou para caminhar por ali e que, pelo visto, esqueceu do convite – ou mudou de ideia.

Atravessei a praça e caminhei pela calçada do cemitério abandonado, desgastado feio. Tão descemitério que nem mais dá medo. E pensei que, um dia, sim, seremos esquecidos e não colocarão mais flores no nosso túmulo… Apenas um pequeno buquê de flores de plástico coloria uma só sepultura, a de alguém que despediu da Terra em 1869.

Passei pela parada de ônibus. Ninguém me olhou. Imaginei quanto será que aquelas pessoas ganham? Será que elas tem uma bela poupança que poderia levá-las à Europa? Será que elas andariam a pé se a possuíssem, ou de ônibus?

Então, um pedaço da calçada totalmente destruído me fez andar pelo meio da rua – o que nunca aconteceria em Brasília… e pensei o quanto era perigoso andar por ali, sob as mangueiras cheias de mangas passíveis de cair sobre nossas cabeças a qualquer momento… Andei em passos calmos, mesmo assim – como jogando na loteria. Se cair, caiu. Assim como os passos calmos que dei enquanto passeava pela praça, e os periquitinhos assanhados gritavam querendo mudar de árvore. Se cagar na minha cabeça, eu limpo…

Em uma calmaria que me era estranha, eu não me preocupava. Pensei em caminhar pela rua onde há as vitrines de dondoca, as chamada boutiques – de roupas caras, mas decidi passar pela frente do colégio onde estudei por mais de dez anos. Entrei.

Está tudo aberto, o que era parede virou um gradeadinho. Fizeram uns bancos de mármore verde, todo estilizados, e cobriram onde antes chovia. Transformaram o banco que era grudado na parede em uma rampa. A pracinha não é mais tão escura, não tem mais cobertura, ali, sim, chove! Lembrei-me de quando eu dividia o lanche com minha amiga @nathaliesanz. Pão com requeijão e queijo mais Toddy. Lembrei também do menininho que o Celton levou para me conhecer, enquanto eu lanchava. Ele era tímido, loirinho, franzino e fugiu com o coração na mão quando me viu. Mal sabia ele que eu o achava lindo (e ele é até hoje! um homão que só vendo – sempre tive bom gosto…).

Sem contar que os telefones públicos pareciam os mesmos, e o bebedouro também. Lembrei do Argentino que usava Lapidus, passando por ali, e do nosso amigo Wade Hill, para quem ligávamos quando os telefones públicos decidiram fazer ligações internacionais gratuitamente.

Saí de lá mudada. Não sei se para o bom ou para o mau. E me lembro de ter reclamado da decoração inútil de uns quadros de muito mau gosto que “enfeitavam” as paredes do colégio. Enfeiavam, sem o “t”, seria mais apropriado. Era melhor com as paredes nuas.

Enfim, ao sair do prédio, deparei-me com um cabeludo usando mochila, sentado sobre uma bicicleta. E ele era parecido com o @gutocarvalho, a priori, mas reparando bem, ele era mais parecido com Jesus. Também me lembrei nessa hora do @RaphaRB, que ficaria com ciúme se soubesse que eu pensara em alguém que ele nem sabe quem é, e não se lembrara dele.

Olhei-me no reflexo da fachada de uma padaria famosa, onde fui com um amor da minha vida que não sente a minha mínima falta. Ele era gay. Era amor de amizade, enfim… olhei-me e vi-me. Admirei-me, como o usual. Não serei hipócrita. Hoje eu sou como sempre quis ser. Cabelo bom, magra e sem barriga. Bem diferente daquela menina forte, descabelada, usando aparelho e óculos de alguns anos atrás.

Lembrei-me do carinha com quem saí e não me beijou. Lembrei também do que me beijou e hoje já não quer mais beijar… e de alguns outros foras que levei. Mas também lembrei dos que me circundam curiando sobre como seria se me beijassem. E ri.

Fui embora e olhei para a parada de ônibus onde eu deixava a melhor-amiga-da-época-do-inglês. A gente conversava em inglês até o ônibus chegar. Nem era exibicionismo, nem treinamento, sabe? É que simplesmente a gente esquecia de voltar a falar português quando saía da aula. Éramos adolescentes. Era bom.

Passei pela banca de revista onde eu fiz amizade com a moça que tomava conta, só para ela separar tudo o que chegava do Bon Jovi para mim. Pôsteres, notícias, revistas de fotos e o escambau. Eu sabia tudo sobre ele e cantava suas músicas de trás pra frente, de cor e salteado e ainda imitava as poses que ele fazia nos clipes…

Avistei uma mendiga coçando o ouvido com um pedúnculo de flor. Juro que achei poético e depois ri de mim mesmoa justamente por ter achado aquela cena tosca, poética. Sim, ri no meio da rua, como se fosse a pessoa mais feliz que transitava por ali.

Enquanto caminhava pelas casinhas do exército, eu me lembrei de um dia em que eu olhei para o guarda que ali estava, e NOSSA! ele tinha uns olhos verdes muito brilhantes. Então eu olhei de novo, só para conferir. E ele viu. Depois eu virei para trás só para ver se ele tinha percebido e ele já estava sorrindo para mim. Inesquecível. Eu não o estava paquerando – imagina! – estava somente admirando as suas duas bolinhas de gude que brilhavam para mim. Eu contando ninguém acredita, mas era verdade…

E então cruzei no restaurante onde hoje vou apenas para comer a pizza salgadíssima a quatro queijos. E é um restaurante tão antigo que é do tempo, ainda, em que saíamos com o papai para jantar. E era ele que pagava a conta. Nossa… faz muito tempo que ninguém me paga a conta. Eu não deixo… como eu trabalho, faço meio que questão.

Na verdade eu sinto falta dos dias em que eu era dependente. A preocupação era menor, a pressa então, quase não existia. Cada minuto era vivido somente pelo viver. Estudar e estudar. Eu tinha metas. Crescer, virar adulta, formar-me, conseguir um emprego…

Agora já tenho tudo o que queria. Aliás, quase tudo…

No entanto, mesmo assim, e com certa coragem, eu consigo dizer – agora eu posso morrer.

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4 pensamentos sobre “Devaneios em uma Caminhada

  1. Lindo texto querida, me levou junto contigo em todos os seus devaneios, os detalhes e carga emocional são dignas de uma poetisa modernista e o estilo bem próximo de bandeira 😉

    Besos!
    @gutocarvalho

  2. Passeei contigo é é como se eu tivesse visto lugares onde nunca estive.
    Fiquei feliz que lembrou de mim ao pensar em alguém que não sei quem é e, sim!, tive ciúmes.
    Mas tá desculpada… Só não sei se te desculpo de me fazer chorar sozinho na frente de um monitor.
    Te adoro, Jazz! E te desejo tudo de bom na vida.

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