Um Conto Azul

Para o menino com nome de Flor

Finalmente, minhas lentes de cor chegaram; azuis-turquesa. Mal acordei, tirei as transparentes que eu já usava (sim, não tiro as lentes para dormir), e coloquei as novas, lindas, que prometiam realce à minha pele alva diante aos meus cabelos escuros e indomáveis ao vento.

Saí com minha amiga de adolescência Amy, fomos a pé até o colégio onde estudávamos. Talvez o ano fosse 1996 ou 1995, mas era como se eu tivesse só o corpo de 14 anos, com a experiência e as memórias que tenho agora. O evento deveria ser aquele – o mais esperado do ano – a Feira da Cultura.

Na feira da cultura, alunos demonstravam seus trabalhos e a interação era certeza entre os garotos de série mais avançada, que eram nossos sonhos de consumo. Nós iríamos “super interessadas” nos trabalhos, e perguntávamos tudo sobre eles, às vezes, só para conseguir sorrisos. Na maioria das vezes, na verdade…

Então o vi, perto das flores e de uma parede. Beijando a bailarina. Crisântemo sorria e a olhava nos olhos, enquanto meu coração apertava e me fazia embargar a voz. Amy sentira a minha angústia, reagiu apertando a minha mão. A bailarina contra a parede e ele a cobrindo com seu sorriso… Doía.

Respirei fundo, e passei por eles. Ele me viu e largou-a, indo de encontro a mim. Eu, como o usual, joguei-me ao seu encontro, com os braços pendurados em seu pescoço e tendo aquele sorriso terno só para mim. Sim, na época eu me encantava e me contentava com os sorrisos, afinal, era a única coisa com a qual estava acostumada a receber dos meninos que eu gostava.

Ele perguntou como eu estava e disse que sentia saudades. Amy esperava encostada no parapeito da grade que separava a área da quadra aberta, sorrindo de longe – eu sentia a sua energia de boas vibrações vindas com o vento. Era meu horário preferido do dia, às cinco da tarde, e a luz do sol fazia tudo ficar meio amarelado. Meus olhos azuis reluziam, e os cabelos compridos dele brilhavam.

Foi um abraço e um sorriso que ganhei dele, mais duas palavras de carinho.

Voltei para a casa extasiante, porque por alguns momentos, Cris tinha sido só meu, direcionando toda a sua atenção para mim e esquecendo a bailarina, que permanecia encostada na parede, esperando ansiosamente pelo fim daquele abraço de seu namorado com uma desconhecida.

E os meus olhos azuis, ficaram coloridos pela noite toda, dormi como pedra e acordei para contar.

4 pensamentos sobre “Um Conto Azul

  1. Que texto loco. Me inspirou a voltar pra uma visita, o mais rapido possivel, ao meu antigo colegio (Sto Antônio). Exatamente pra ter essas sensações.
    Thanks Nic.

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