Eu e Meu “Pai”

Há algumas pessoas bem interessadas no meu passado. Não tenho nada a esconder. Hoje em dia posso falar à vontade sobre o assunto porque tenho certo orgulho dele. Apesar de muita dor sofrida no passado, pude com elas, aprender e superar. Usá-la como arma de ataque e escudo de proteção para o futuro, o que pouca gente consegue.

Meus pais se separaram quando eu tinha quatro anos. Ainda lembro de algumas coisas dessa época. Lembro que eu senpre senti meu pai distante, como se não fizesse realmente parte da família. Talvez, no momento em que eu nasci, ele já não fazia mesmo parte dela…

São lembranças poucas e muito ruins as que mantenho. Sei que eu roía muito as unhas e que tinha muito medo de ir ao colégio, de ficar longe da minha mãe, sinais de ansiedade. Se bem que, aos quatro anos eu já sabia  ler e escrever, sabia as cores em português e inglês e até hoje eu me lembro das historinhas de cada letra (como o B, que era B porque era Barrigudo…).

O dia em que meu pai encharcou de álcool o colchão de casal onde ele dormia com a mamãe foi marcante. A gente se trancou no quarto para que ele não ateasse fogo no quarto com a gente dentro. Não me lembro de ficar desesperada ou cisa assim, mas eu observava tudo com olhos arregalados de incompreensão. Depois desse dia, ele foi embora e nós ficamos dormindo em um outro quarto (que não era o que eu dividia com o meu irmão), enquanto o colchão de casal secava. Todos juntos, os três, eu, minha mãe e meu irmão, no mesmo quarto.

Ele passou um tempo fora de casa e um dia voltou de carro novo. Essa cena ficou tatuada na minha mente: eu na ponta dos pés para alcançar a janela e ele chegando em seu carro novo e vermelho. Não fiquei com medo, tampouco feliz. Aquele homem sempre foi mesmo um estranho no nosso ninho.

Passei a dormir com minha mãe, na cama de casal e isso durou três anos, quando finalmente nos mudamos daquela casa. Frequentemente eu tinha episódios de terror noturno. Acordava chorando e gritando. Por vezes, caía da cama.

Continuei tendo um contato distante com ele. Aos sábados, ele nos levava para almoçar e depois passava a tarde dormindo, para não suportar o dia inteiro com a gente. Depois levava para jantar, dava uma mesada e entregava de volta para a mamãe. Assim, como mercadorias e cumprimento de obrigação.

Um dia, vendo onças num museu, eu o chamei acidentalmente de tio, mas disfarcei rápido soltando um “tchê” e ele me comparou aos gaúchos. Ele era contador de piadas, eu tinha muitas feições dele, mas ele continuava sendo “de fora”. O cara rico que dava presentes fora de órbita, mas não sabia amar.

O contato foi diminuindo a cada semana… já nem fazíamos questão de passar o dia todo com ele, porque ele, afinal, passava a tarde dormindo, deixando-nos assistir filmes que gravava em VHS. Ok, tivemos bons momentos em nossa banda, onde ele cantava e intercalava o contrabaixo e o violão com meu irmão, enquanto eu dominava o teclado.

Aos meus 15 anos, ele arrumou uma (nova) família de verdade, arrumou filhos de verdade para amar e a gente se afastou de vez. Na verdade, queríamos que isso fosse verdade, mas ele continua aparecendo… para nos infernizar.

Conseguimos nos virar sozinhos. Por anos, meu irmão sustentou a casa para que eu conseguisse me formar – porque ele simplesmente, deixou de pagar pensão. Eu me virava fazendo tratos com o rapaz da biblioteca – ele me deixava ficar com os livros por mais tempo que o permitido e cobrava boas notas. Eu também não tinha preguiça de copiar e digitar o que meus amigos tinham em mãos e passava horas tirando xerox de alguns liros essenciais que nunca estavam disponíveis para empréstimo na biblioteca.

Passei seis anos da minha vida sem sair à noite. Tive muita dificuldade na faculdade, não era filhinha de papai, não tinha carro e nem poderia aproveitar dos Congressos onde a maioria ia mesmo para se embebedar. Eu me contentava com as fugidinhas com meu namorado e era realmente feliz com isso.

Enfim, consegui me formar! Nossa vida melhorou muito, e eu passei a ajudar na casa. Crescemos juntos e sem precisar dele… E ele sempre marcando sua presença.

Primeiro, ele me tirou do plano de saúde dele. Dei graças a Deus… pois poderia pagar (mesmo ele não precisando pagar nada pra gente, já que o plano é do emprego dele. Mas ele fez isso para chamar a atenção e eu fiz descaso. Comecei a pagar e não dei bola).

Depois, ele tirou o plano da mamãe. E nós tivemos que procurar rápido um outro plano, já que mamãe é idosa e precisa ir ao médico constantemente. Hoje ele colocou minha mãe na justiça porque quer metade de udo o que ela tem. O que ele se esqueceu é que minha mãe nunca trabalhou e não tem, efetivamente: NADA! Acontece que ele pensa que sou rica só porque sou médica (doce iludido e sem noção!) e quer tirar o que ele pensa que eu tenho.

É isso… não tenho do que me envergonhar, só tenho a me orgulhar. Com tanto problema, nunca me fiz de coitadinha ou me deixei abater. Sempre levei alegria para onde quer que fosse e ajudei a quem precisasse. Tomei muito banho de chuva antes de pegar ônibus e chegar ensopada na faculdade- é por isso que eu AMO oferecer carona aos meus amigos, principalmente se é para estudar.

Então, minha cara, antes de tentar me ofender lembrando que o meu pai não presta, lembre-se que foi ele quem me fez forte e me ensinou a ter coragem para me levantar todas as vezes que caí e de continuar lutando a cada dia.

Não existe fortalecimento sem dor.

7 pensamentos sobre “Eu e Meu “Pai”

  1. Entendo vc e te falo uma coisa, passei por algo semelhante. Tive um pai super presente na infância, aquele que fazia questão de viver abraçando e beijando os filhos como sinal de amor. Porém, na minha adolescência, no momento em que mais precisávamos dele, nos abandonou, arrumou outra família e simplesmente ignorou a que ele já tinha. Chegou a nos ameaçar de morte, andava armado, é policial. Conseguimos sair daquela situação com a ajuda de minha querida avó já falecida. Passei no vestibular, fui embora, me formei e hoje ajudo minha mãe. Durante esse tempo da faculdade, ele não me ajudou, mas na festa de formatura fez questão de aparecer, pra dizer que tinha uma filha advogada. É…é bem por ai.

  2. Jazz,
    Não sei se essa parte da tua história já era pública, mas achei que foste super corajosa em expor essa situação que vivestes e de certa forma ainda vives.

    Teve, ou tem, o lado negativo, mas que bom que soubestes extrair algumas coisas boas pra tua vida e da tua família.

    Viver a vida intensamente é um privilégio que poucos sabem fazer. Acredito que sejas uma dessas pessoas.

    Um abraço,

    @AcaiGrosso

  3. “O que não mata, fortalece”, “Deus não dá um fardo maior do que podemos suportar” e por aí vai.
    Não te conheço, não tenho uma história igual a tua (pelo menos a revelada nesse texto), tampouco sei da história que desencadeou esse “desabafo”, mas acho que é por aí que as coisas devem ser: batear a poeira, bola pra frente, sem guardar rancor e, principalmente, sem julgar. Tem alguém muito acima de nós todos para fazer isso, no final das contas.

  4. agora pude ler com calma o post e me emocionei. minha história familiar não é parecida, mas entendo muito bem quando constatas que todo esforço e sacrifício anteriores valeram a pena e, principalmente, te orgulhas de ter trilhado um caminho difícil rumo a uma posição mais confortável.

    continua assim, jéssica. em 90% das situações da nossa vida, a cura se encontra na doença.

    beijoca,

    karla.

  5. A tua motivação sempre é capaz de emanar boas vibrações. Sinto!
    E que continues muito bem, moça.
    Abraços. 🙂

  6. Desta vez vc se superou, o email com seu post estava na minha caixa de entrada a quase 1 mês, eu estava juntando coragem para ler, agora que li vejo que eu tinha razão de estar medrado.
    Muitas são as coincidências da sua história com a minha. Também aprendi muito com a separação de meus pais na minha infância, hoje também sou separado, só que faço tudo diferente de meu pai, sou amigo da minha ex, nunca brigamos, moramos juntos 1 ano antes de nos separarmos, li dois livros sobre separação com minha filha, para ela entender o que iria ocorrer, fiz questao de colocar 3 dias na semana de visita a minha filha durante a semana no processo de separação, onde tivemos um só advogado, outro detalhe é que oriento minhas amigas separadas a exigirem sim uma pensão justa para ajudar na criação dos filhos.
    Parabéns pelo post.
    Por favor continue escrevendo sempre.

  7. Oi… Adorei ler seu post. A sua história é bem parecida com a minha sinceramente estava precisando de algo assim para me levantar.
    Meu pai nunca assumiu a minha paternidade. Até hj tenho a lembrança dele me negando junto ao juiz. Nessa época eu não tinha mais do que 4 anos. Minha mãe provou em juízo.
    Durante minha vida inteira corri atrás dele mendigando sua atenção, mas nunca recebi uma palavra de afeto.. Somente críticas. Cresci, estudei, me graduei. Hj trabalho, e sou independente.
    Mesmo com todo esse desprezo tento ajudá-lo, pois não tem apoio de mais ninguém. Mas a cada dia me surpreendo mais.
    Hj moro na primeira casa dele no quintal dá minha avó. Ele me deu a casa.
    Ele se perdeu e não tinha onde morar, e eu o chamei para morar comigo, já que moro sozinho e quase não fico em casa. Bem para a minha surpresa. Após 3 meses de casa, comida, e roupa lavada. Ele quer me expulsar de lá. Sabe doeu muito, mas vou passar por essa de cabeça erguida. E deixá-lo vivendo sua vidinha medíocre.

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