Autoensaio – Não leia, nem comente

Meu infinito é particular. Ninguém entende, porque ninguém conhece desde o começo. Não sabem minha história, não vivem meu presente. E eu não tenho paciência de explicar. A história é longa, de desventuras e aventuras desastradas, altos, baixos, loopings, hiatos e turbulências. Indefinível, cinza, coloridíssima, purpurinada ou preto e branco. Cada dia uma coisa, mas sempre cíclica.

Estive sempre comigo mesma, centrada, sem apegos. Meus amigos deixo ir, é mais cômodo do que se envolver. Meus amores deixo livres, afinal, sempre tem alguém melhor, por mais que eu me lapide. Estudei, trabalhei,  pintei o cabelo, malhei me valorizei (parafraseando o poeta daquele forró).

Talvez, a única pessoa que entenda esse texto, também será a única que se dará ao trabalho de ler. E olha que ela pegou o bonde andando na metade, mas conseguiu sentar na janela. Deixei-a ir, como todos os outros, mas ela voltou.

Por entre desafetos e amores, diverti-me. Gargalhei alto até cansar e chorei durante dias inteiros, soluços inconsoláveis raptados num final de semana dolorido ao telefone com os amigos da época. Tenra época. Espevitada, maluca, desequilibrada, infantil, porém inteligentíssima. Tudo o que fazia era com dedicação e autocobranças. Tinha que ser a melhor senão não valia. No colégio, no curso de inglês, na dança. Cheguei ao ápice e decaí.

Perdi sagacidade, habilidade, doçura, ingenuidade. Ganhei malícia, mágoas, temores inaceitáveis encarados com muita agressividade. Tornei-me uma pessoa comum, ou menor, talvez. O peso da idade e das responsabilidades balançaram tanta altivez, mas eu tinha que provar que ainda era a tal.

Finalmente, o rapaz ideal gostou de mim. Talvez ele ainda receba este blog por e-mail, talvez não. Escrevi quase um livro de posts sobre ele neste blog e eu também fiz questão de perdê-lo para o acaso, só para não perder o costume. Paixão, ironia, sarcasmo, rancor, toda uma inteligência usada somente para machucar. Matei este amor que nem tinha nascido. Abortei-o.

Morri. E busquei ajuda no limbo. Cutuquei feridas das mais doloridas, arranquei o cascão e passei aquele merthiolate antigo que ardia horrores. Vacinei, mediquei, expurguei. O passado virou cartilha e eu tive que reaprender a ler. Ergui-me, mas confesso que ainda estou com medo de correr. Arrumei alguém pra me dar a mão e hoje sinto dúvida se essa foi a escolha dele ou eu o forcei a escolher.

Porque, afinal, mnha natureza é ser sozinha. Eu sou estranha, sou minha, interior, peculiar, tenho comigo que sou minha melhor companhia e que ninguém mais vai suportar conviver comigo. Definitivamente, não sou comum, o que não significa que eu seja extraordinária. Talvez seja a peça mais dificil de encaixar nesse quebra-cabeça enorme que é a vida. Talvez seja a avulsa que veio sem querer na caixa.

Ou não… talvez eu seja a peça coringa que pode se encaixar em qualquer lugar, mas você nunca sabe onde é o lugar certo. É apenas uma vontade de ser diferente quando se é comum. Ordinário. Mais um. Apagado, transparente, sem sal. Querendo ajudar os outros para esquecer-se de si um pouco. Tentando me entrosar com esse mundo estranho que parece não me pertencer.

E as pessoas julgam, condenam, torturam. Eu as deixo, fugindo de tais punições, sem olhar pra trás e para não cair. De novo.

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