Ela Chorou

Júlia chegara feliz dos seis dias de viagem à Bahia. Voltara de um congresso cheia de novidades, fotos, aprendizado e lembranças boas que construiu com alguns amigos. E cheia, também, de saudade do namorado. Estavam apenas começando. Ele era bem diferente dos outros, mais quieto, caseiro, e ela estava ainda aprendendo a lidar com tantas diferenças.

Chegou alvoroçada, dando nele, um grande beijo. Ele, sem jeito, perguntou o que havia acontecido. “Saudade!”, disse ela, como se fosse óbvio. Nem era!

Ele se sentou longe dela. Ela na cama, ele na cadeira de escritório. Cruzou os braços, denunciando que não estava confortável em começar a conversa. Protegia-se da tormenta que ainda estava por vir, desencadeada por ele. Porém, não fazia ideia da dimensão do estrago que causaria.

Ela demorou a entender, mas sentiu de imediato o que estava acontecendo. Sentiu os setenta porcento de água presentes em seu corpo esquentarem até ferver, numa explosão que resultaria – ela sabia no quê. Tentou-se retirar antes da tragédia, para que ninguém a visse naquele estado. Afinal, tinha que manter sua fama de forte e bem resolvida. Ele não deixou. Parecia que queria vê-la sofrer ali na sua frente, para ter a certeza de que ela entendera o recado.

– Você esteve fora e eu não senti a sua falta. Prefiro ficar em casa lendo, estudando ou jogando do que ficar com você. Não consegui me apaixonar. Eu até iria propor que fôssemos amigos coloridos, mas achei que você não iria topar.

Ela não poderia acreditar que tinha escolhido um ser de tamanha crueldade para namorar. Sentiu raiva de si mesma por ter-lhe dado essa chance. A chance de ser enforcada com a própria corda. A grande queimadura na língua de quem se gabava por ter namorado apenas príncipes. Ali estava a sua exceção a todas as regras, pisoteando no ego da outra para que o seu próprio crescesse àquelas custas deploráveis.

Entrou em prantos, deixando o ego de lado, não aguentando mais segurar, uma vez que ele não a deixava ir. Seu rosto enrubesceu de tanta vergonha, escondeu-se. Estava mais feia do que realmente se sentia. Ele a desenhou de uma maneira irreconhecível e ela que lhe dera o papel e o lápis. Não chegava a ser um desenho, era um rabisco, uma caricatura cruel que acentuava todos os seus defeitos.

Tentou ainda forçar uma amizade. Mas a cada vez que se lembrava de tanta sinceridade assassina no dia do término, arrependia-se de ser tão legal. Sentia-se ridícula e conivente com o que acontecera. Afastou-se.

Seguiu a vida, ainda bem! Conheceu pessoas incríveis, novos amigos, cresceu profissionalmente, em tão pouco tempo… passaram-se seis meses para ter notícias dele novamente. Conheceu a tão famosa ex-namorada dele, Juciara, com quem ele ficou catorze anos. Admirável a menina. Conseguia se contentar com sexo semanal, com a ausência dele em eventos de amigos. Um exemplo de amor e paciência. Além disso, engraçada e uma simpatia.

Hoje, inclusive foi aniversário dela! Júlia pediu que ela não poupasse sorrisos neste dia (ela tem um sorriso contagiante!). Se as asas de uma borboleta podem provocar um tufão, essa mensagem no mural de Juciara desencadeou em Lúcio, a lembrança de Júlia. Ele não resistiu e deixou-lhe uma mensagem. Mesmo sabendo que hoje ela vive uma paixão com outra pessoa.

Que ousadia…

Dividiu o acontecimento com a amiga, Thais. A mesma que Lúcio investira em conquistar algumas semanas antes. Tentaram marcar algo e não conseguiram. O que será que Júlia pensaria disso? Imaginava ele…

Nada… se um dia ele a fez chorar, agora, causava-lhe gargalhadas de desdém.

(adorei o fim deste post!)

2 pensamentos sobre “Ela Chorou

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