Are You Ready To Be Heartbroken?

A vida era boa. Tinha paz, um emprego estável, muitos amigos, saúde. Achava que não precisava de mais nada, uma vida serena, sem turbulências, focada no presente, sempre e sempre. Não porque seguia a filosofia zen, como sempre dizia. Mas por ter pavor de lembrar do passado e imaginar o futuro. Preferia ficar ali onde estava, estática, cômoda.

Depois de tantas turbulências, merecia esse descanso que gozava já há alguns meses. De sua zona de conforto, após tantos tratamentos, tanta tentativa, tanta busca do “ser o que é”, estava ali, sem tantas ambições, e ainda com muito medo de arriscar-se.

Até que… inesperadamente, surge alguém. Alguém do tão temido passado para trazê-lo à tona. Só de lembrar, sentiu-se dentro da canoa quebrada, novamente, aquela em que qualquer segundo, afundaria em meio à tormenta, à tempestade. Desequilibrou-se, caiu, afundou, mas tudo não passava de um mero pesadelo. Afinal, era passado. Apenas um fantasma que queria assustar e assustou.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Chorou tanta dor que já havia sofrido, soluçava sozinha de madrugada ouvindo suas músicas preferidas no fone de ouvido – para não acordar a família em sua casa pequenina. Chorava de alívio por ter sobrevivido, de arrependimento por ter agido tão errado, por ter feito pessoas sofrerem, por ter descuidado dos amigos, na época, por ter-se deixado enganar.

Chorava também porque não poderia retornar e apagar tudo da mente dos que sabiam. E por vergonha deste passado existir. Perto do presente era tão nebuloso, tão nefasto, tão feio, tão amedrontador.

Levantou-se fraca, com um olhar pesado, tentou sorrir enquanto dirigia, cantou o que tocava no rádio, para espairecer. Afinal, ninguém que a cercava merecia sua careta de noite mal-dormida.

Trabalhou como em transe, em piloto automático. Almoçou porque era hora, mas não tinha fome. Não foi dançar, que era o que mais amava. Chamou um amigo e foi beber em um bar próximo no fim do expediente. Conversou, contou tudo o que não contava a ninguém e reclamou de sua vida miserável, como se os outros nunca tivessem errado também. O amigo sorriu-lhe com paciência. Compreendeu-a, levou-a pra casa.

Dormiu de cansada, sonhou pesado. Acordou sensibilíssima. Ao tocar os pés no chão, sentiu-se arrepiada pelo frio da lajota. Foi ao banheiro, sentiu cada gota de água que caía do chuveiro, encostar em sua pele e arrastar-se até o chão. Estava realmente presente como sempre tentara e nunca conseguira.

Ao caminhar pela rua, sentia a saia dançar com o vento e o frescor subir pela coluna vertebral. Estava viva. O pé se acomodava macio à sapatilha e o pensamento não ia tão longe, estava bem ali no mesmo lugar.

Saiu sozinha para tomar um cappuccino. Enfim sentira, ao mesmo tempo, o gosto do café, do leite e do chocolate. Ouviu uma música no rádio, a mesma que havia pensado pela manhã… Are you ready to be heartbroken?

Finalmente, estava.

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