O Desespero de Manu

outubro rosa

Manuela até que não era uma pessoa atribulada. Trabalhava apenas para se manter, esportista, comia bem, morava só, tinha vários amigos. Tentava ajudar a todos, até porque, privilegiada, não cultivava problemas. Apenas resolvia-os.

Até que um dia, no banho, notou um caroço na mama direita. Um caroço grande (do tamanho de uma azeitona), móvel, bem palpável. Nem dava para confundir com tecido mamário. Palpou a outra. Nada de anormal.

A mama direita sempre fora um pouquinho maior que a esquerda, mas agora, fugia do sutiã. A vida passou por toda a sua mente naquele momento. Como não havia percebido antes? Porque surgia agora tão grande? Tão de repente? Teria sido tão negligente ao ponto de esquecer o autoexame por tantos meses? Ou crescia tão aceleradamente que não teria mais jeito?

Com quem contar? O que fazer? Não via ninguém que pudesse lhe ajudar. Se fosse mesmo câncer, não contaria pra ninguém. Muito menos sua mãe que já cultivava tantos problemas. Nem para a amiga que já tem depressão. Nem para a que estava longe. Nem para as mais jovens. Escolheu apenas uma: a que estava por perto e tinha a mesma idade; parecia que não se afetaria tanto com a notícia. E principalmente: a mais otimista de todas.

“Nâo há de ser nada, você vai ver! Também tive um nódulo que me deixou preocupada até descobrir que não era nada!”.

Empatia! Nessa hora, tudo o que precisava! Escolheu certo.

Porém, a demora para conseguir a consulta, para marcar o exame… fazia-a pensar nisso o tempo todo!

Foi privilegiada em tudo, sempre teve saúde, apoio familiar, amigos, emprego e dinheiro. Mas agora, poderia perder tudo em poucos meses. Via a vida finita a cada momento. Tentava passar um tempo maior com a família. Todos os dias ia ver sua mãe e seu irmão. Dizia a todos os amigos que os amava.

Não entendia porque havia acontecido logo com ela, que evitava comer carne vermelha, não fumava nem bebia refrigerante. Praticava esportes. No entanto, lembrava de todos os alimentos industrializados que consumia. De cada radiação à qual se submetera sem necessidade (laser para depilação, por exemplo). Porque fez isso em nome da beleza?

Já imaginava sua queda de cabelo. E como iria maquiar os olhos para que chamassem mais atenção de que sua careca. Já imaginava-se sem suas duas enormes mamas, que tanto chamavam a atenção. Como seria o tratamento? Aguentaria como sua amiga aguentou? Firme, forte e linda do começo ao fim?

Pensava em chorar, mas não conseguia. Preferia respirar e fazer meditação. Foi o que conseguia fazê-la dormir. Afastou-se um pouco dos amigos. Boa companhia já não era. Limitava-se a responder mensagens pelo celular. Porque se afastaria de todos, mantendo segredo do seu problema, porque não aceitava os sentimentos ruins de pena que poderiam surgir.

Sempre foi forte, decidida, independente. Encararia sozinha até que seus cabelos caíssem e não desse mais para esconder.

Uma semana de agonia até receber o resultado. Era um cisto. Benigno. Que sairia com uma simples punção. Nada de retirar as mamas. Nada de quimio ou radio. Nada de queda de cabelo e maquiagem pesada nos olhos.

Respirava, enfim.

E voltava para sua vida absurda e incrivelmente feliz, de emprego, esporte, amigos e amor.

Um pensamento sobre “O Desespero de Manu

  1. Bem assim aconteceu comigo, só que na ocasião estava recém separada, com 3 filhos para criar. Também me desesperei, fiz cartinha dizendo com quem iria ficar as crianças, uma menina de 13 anos e gemeos de 12. Mas no fim, também era benigno, retirei o caroço e fiquei boa. Já fazem 20 anos e sempre que faço mamografia, está tudo bem. Foi bom lembrar, para valorizar ainda mais a vida.

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