Texto Para Narcisa

Eu a observei a noite toda com olhos de gato em uma presa. Chegou à festa escoltada por três amigos. Era bela, mas nesta noite, estava mais ainda. Eu, sempre acostumado a admirar sua beleza por detrás dos seus óculos de grau com lentes grossas, e o cabelo preso em um coque, admirava cada vez mais sua metamorfose para a noite.

Exibia com charme os seus cabelos escuros, longos, levemente ondulados. O olhar parecia irradiar energia térmica, e o sorriso iluminava quem era exposto a ele – basicamente seus amigos. Encontrou muitos deles e a cada encontro, muitos sorrisos, muita luz, muito calor emanava dela.

Porém, uma pessoa causou-lhe exatamente o oposto. Eu bem que reparei, em uma hora em que conversava animada com uma amiga, perto da porta de entrada, o que aconteceu quando ele chegou. Não era nada demais. Um fedelho branco, alto, barbudo, com o cabelo meio arrepiado e que parecia estar muito acima do peso, chegou de mãos dadas com sua namorada, também um tanto estranha para o meu gosto, usava o típico óculos indie – que parece ser a tendência das pessoas daquela tribo – e tinha uma beleza bastante escondida para eu ter paciência de procurá-la.

Minha musa pareceu entrar em pane. O calor do olhar esfriou e o brilho do sorriso se apagou e deu lugar a um sorriso amarelo. E fugiu para o lado oposto do lugar, dançou para espantar o que lhe incomodava. Dançava de olhos fechados e com a mesma intensidade da música. A tática deu certo, pois recuperou-se no tempo de três músicas.

Encontrou um outro amigo na pista de dança, que parecia especial – cheguei a ficar com ciúmes – mas não aconteceu nada demais nesse encontro. Ela o olhou e ele sorriu, como se já conhecesse. Ela foi até lá, cochichou-lhe ao ouvido e ele deu uma gargalhada, enquanto os amigos dele, morrendo de inveja, zombavam do menino (um baixinho entroncado, que também usava os famosos óculos indie daquela moda esquisita). E saiu de lá, como uma vitoriosa.

Contudo, ao descer as escadas para o porão, o fedelho gordo abordou-lhe. Ela parou de sorrir (momento raro na noite) e cumprimentou-lhe completamente gelada. Deu as costas para o menino, enquanto ele lhe beijava a mão com uma expressão bizarra de pesar. Desta vez não se abalou muito. Acho que já estava preparada para eventuais reencontros com ele durante a noite.

Ainda rolava um concurso tosco, de air-guitar. Ela torcia com muita animação para o magrelo, de camiseta amarela, gritando e aplaudindo, com um espírito bastante juvenil, não ligando para a tosqueira do concurso. Enquanto isso, o gordo branquelo estava de longe, a observar-lhe, exatamente como eu. Onde estaria sua parceira naquele momento, não sei dizer. Estava muito ocupado vigiando as asas coloridas de predomínio cor-de-rosa da dançarina vestida de preto e branco.

Ao encontrar um famoso blogueiro, cumprimentou-lhe com um sorriso e um aceno, ele estacionou diante dela, fez-lhe o sinal da cruz como se a benzesse e a chamou de Jesus Cristo! Ela voltou-se pasma para um amigo, não compreendendo a situação.

Foi embora cedo, ainda nem era cinco horas da manhã. O amigo especial (o baixinho de óculos) viu que já ela ia embora, despediu-se com um sorriso e uma piscadela. Ela pareceu espantada, sorriu de volta e comentou alguma coisa com uma amiga.

Olhou-me apenas, uma vez, para conferir se estava tudo certo. Até sorriu para mim no começo da festa. No entanto, esqueceu-me no decorrer da noite. Na verdade, não me necessitava mais. Eu é que sempre preciso dela refletida em mim.

Mirror Mirror

Ass: Espelho.

29.01.2005

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