Amor em Três Metades

O amor existe e está aqui dentro. Não é fácil deixá-lo sair. O egoísmo está de guarda na porta da saída, impedindo-o, prendendo-o. Mas ele é livre de nascença. Por ser infinito em sua grandeza, espera. Mas persevera. Quando o guarda menos esperar, ele sai. E nós, temos algum poder sobre ele? Ilusão!

A primeira vez que ele saiu de mim, foi bem lentamente, na surdina. Conseguiu driblar o guarda na pontinha dos pés. Mas da última vez, quase quebrou as portas, fez barulho, um estrago. Saiu sem avisar, sem que eu quisesse, revelou-se quando não deveria e briguei com ele.

Eu e meu ego, sufocamos esse amor o quanto pudemos. Mas ele foi mais forte.

Quando vi, já estava lá. Aromatizando uma música, trazendo água mineral, sorrindo, sendo cuidadoso, falando de poesia, família e medicina. Contudo, não era a hora. Coração batia aceleradamente, e eu cuidava para que não fizesse tanto barulho, mas fez alarde, sim.

Tempos depois, o mundo girou mais uma vez. Dessa vez eu estava livre e deixei o amor entrar (ou seria sair?). Depois do cinema, os amigos foram se encontrar. O amor estaria lá. Era noite, havia uma banda e chiclete de canela. Finalmente o amor pôde dançar. Já era tempo.

Marcamos um encontro. Chegou na chuva, em cima da hora. Eu já estava lá, como o de costume. Não conseguimos assistir ao documentário do momento. Fomos pra casa. Ouvimos mais música. Ele citou Nietzsche.

Nietzsche

E assim vivemos, eu e o amor. Livres. Cada um na sua, sem nós, apenas o frágil laço que ainda não se desfez, apesar do tempo. Apesar de me chamar de pecado, parafraseando Legião; não que eu tenha renunciado. Na verdade, era difícil acreditar que o amor era mesmo isso: liberdade. Como é até hoje.

O amor veio a mim. Avassalador, porém gentil. Teve paciência, esperou. Ofereceu-se. Eu recusei. Relutei. Mas tentei. Antes eu achava que o amor era sobre mim, e apenas para mim. Não era. Hoje vejo que amar é sempre sobre o outro. Sobre ele. Se hoje eu soubesse, teria-lhe dado as mãos. Confiado. Mas não tinha experiência e muito menos maturidade para aceitar que o amor era assim mesmo. Um paradoxo capitalista e comunista ao mesmo tempo. Che Guevara tomando refrigerante e usando fones de ouvido. Comprando celular importado pelo mercado negro.

Che Guevara Capitalista

Se eu soubesse que o amor não tinha nenhum nexo e nenhuma coesão… naquele tempo, teria-me rendido. Posaria com ele junto à batata frita suicida, que hoje eu nem como mais, ou ao palito de fósforo que me substituiu naquela festa. Eu teria comprado o livro que ele tanto queria, se não tivesse sido interrompida.

O destino nos interrompeu tantas vezes, mas o amor perseverava e sempre voltava. Foi depois de uma briga bem feia, enquanto eu chorava, que o amor se mostrou a mim, expôs-se, sem máscaras, completamente nu. E eu pensava que, nesse tempo todo, amava sozinha, como borboleta mono-alada que voa manca. Mas era um amor bilateral, meio troncho e desajeitado como sempre fomos e ainda somos.

E quando menos esperava, aparecia. Enquanto o amor ainda estava por aqui, recorria sempre aos meus encantos. Quanto mais distraída, mais presente ele estaria. Todos os momentos, se fossem marcados, não aconteceriam. Era sempre assim, ao acaso, que o amor me encontrava e me marcava com mais uma das suas.

Há alguns anos, ele se prendeu de novo à cadeia do egoísmo. De vez em quando, ainda me aparece como um espectro. Um espírito puro que me chega para saber se estou bem e abençoar minha felicidade. É bom ouvir, é bom perceber que estamos ambos felizes, dentro de nossas possibilidades. E enquanto não se pode sair, ele me observa pisar na ponta dos pés, rodeando até eu conseguir chegar. Entrete-se naquela dança de meio cuidado, meio-meio e meio-ousadia. Uma dança em três metades. Tão clara como as entrelinhas que tanto lhe encantam.

É o amor que não se deixa ir. Está preso por vontade. Todavia é livre, como sempre foi.

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